A IA como Capital Intelectual Universal e Política Pública Global
- Evandro Prestes Guerreiro

- há 4 dias
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Nas últimas décadas, ao dedicar minha trajetória acadêmica e científica ao estudo da tecnoeconomia e da infoinclusão social, venho observando de perto como a transformação do conhecimento em mercadoria restrita gerou um paradoxo sem precedentes na história humana. Vivemos na era de maior abundância de dados já registrada e, no entanto, testemunhamos a consolidação de novas e perversas assimetrias territoriais e cognitivas, onde a inteligência permanece sequestrada pelo domínio de poucas corporações.

Nesta reflexão para o SOME Blog, cruzo a premissa fundamental da Inteligência Coletiva, formulada pelo filósofo francês Pierre Lévy, com os diagnósticos críticos que desenvolvi na minha obra Ecossofia Digital: Ética e Estética na Era da Informação.
Minha tese é categórica: o conhecimento não pode continuar sendo tratado como um ativo especulativo. Ele é o capital intelectual da humanidade e, como tal, deve ser de acesso livre, gratuito, inclusivo, ético e oportuno para o cidadão de cada país.
1. De Pierre Lévy à Ecossofia Digital: O Conhecimento como Bens Comuns (Commons)
No final do século XX, Pierre Lévy vislumbrou a tecnologia em rede como o motor de uma Inteligência Coletiva — uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada e coordenada em tempo real. Na visão levyna, a rede seria o espaço do reconhecimento mútuo e da emancipação humana.
Entretanto, conforme venho denunciando em minhas pesquisas sobre a Ecossofia Digital, o avanço do neocapitalismo e do extrativismo de dados capturou essa arquitetura em rede, convertendo a promessa de libertação naquilo que conceituo como o "Visagismo do Ridículo" e a "Alucinação Digital".
Em vez de libertar a inteligência coletiva, os algoritmos proprietários reificam o sujeito, promovendo o consumo da imagem-mercadoria, o esvaziamento da razão e a precarização do saber. Como afirmo em meu livro:
"A infoinclusão não é apenas o acesso ao bit, mas a desconstrução da alucinação que o dado impõe ao sujeito."— Guerreiro (Ecossofia Digital)
Para resgatar a proposta de Lévy e avançarmos rumo a uma verdadeira Cidadania Ecossófica — que reequilibra as dimensões do Eu, do Social e do Ambiental na Galáxia Internet —, precisamos reconhecer o conhecimento em sua essência: um capital intelectual inalienável de uso comum.
2. Minha Defesa Junto à ONU: A IA como Política Pública Nacional e Direito Universal
Se a Inteligência Artificial representa a sintetização do conhecimento acumulado por gerações de seres humanos, seu uso não pode estar condicionado à capacidade financeira do cidadão ou aos interesses comerciais das Big Techs.
Diante desse monopólio cognitivo, defendo categoricamente que a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleça uma diretriz global para o uso responsável, livre e gratuito da Inteligência Artificial como bem público e universal.
Os Pilares para uma IA Soberana e Inclusiva:
Ferramenta Universal de Cidadania: A IA deve ser tratada como infraestrutura básica de desenvolvimento humano, no mesmo patamar de relevância da água tratada, da energia e da educação pública.
Customização Estatal para o Cidadão: Cada Estado Soberano deve ter o direito e o dever de customizar modelos de IA para as especificidades linguísticas, culturais e econômicas do seu povo, promovendo a emancipação em escala nacional.
Gratuidade e Inclusão Oportuna: O acesso não pode ser seletivo nem tardio. A inteligência precisa chegar ao cidadão no tempo oportuno, contornando a histórica concentração de riqueza e oportunidades do capitalismo.
Política Pública Transversal: O uso ético da tecnologia deve ser incorporado como política pública permanente de Estado, assegurando soberania cognitiva contra o colonialismo digital.
3. Direitos Autorais vs. Cultura do Infoproduto: A Urgência da Rastreabilidade e do Respeito à Fonte
Um dos pontos mais críticos que investigo na dinâmica das redes sociais é o esvaziamento da autoria legítima em favor da espetacularização e do lucro rápido. Assistimos diariamente à apropriação desordenada de pesquisas acadêmicas rigorosas por agentes do mercado digital.
É fundamental que a sociedade aprenda a diferenciar dois atores radicalmente distintos:
O Produtor de Conhecimento: O cientista, o pesquisador, o pensador rigoroso que dedica sua vida ao método, à investigação e à construção epistemológica do saber.
O Infoprodutor: O agente focado na embalagem comercial, no gatilho mental e na monetização, que frequentemente captura e descontextualiza pesquisas alheias para vender fórmulas de consumo rápido.
A Ética da Fonte Original
A democratização do saber não se confunde com o plágio ou a pilhagem autoral. A verdadeira ética digital exige que qualquer conhecimento replicado na rede informe obrigatoriamente a sua fonte original, respeitando integralmente os direitos autorais e a propriedade intelectual de quem o gerou. A rastreabilidade da fonte é a única salvaguarda contra a Fake do Cotidiano e a chave para preservar a autoridade científica e filosófica.
Conclusão: Por uma Nova Ecologia do Saber
Tratar a Inteligência Artificial e o conhecimento acumulado como bens de uso comum é o único caminho para garantir que a tecnologia sirva à dignidade humana. A inteligência coletiva postulada por Pierre Lévy encontra na minha formulação da Ecossofia Digital o seu filtro ético e crítico: uma convocação para que organismos internacionais e governos rompam com a lógica mercantilista e façam do código uma alavanca irreversível de justiça territorial, equidade e cidadania.
Referências para Aprofundamento:
GUERREIRO, Evandro Prestes. Ecossofia Digital: Ética e Estética na Era da Informação. Disponível na Amazon: https://a.co/d/007jvaQu
GUERREIRO, Evandro Prestes. Cidade Digital: Infoinclusão Social e Tecnologia em Rede. São Paulo: Senac.
LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva: Por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola.




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