A propina como aprendizagem
- Evandro Prestes Guerreiro

- 2 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2024
O término do ano letivo estava acontecendo quando fui surpreendido com o pedido da reitoria, para eu comparecer em audiência no dia e horário agendado na comunicação. Minha reação imediata foi de surpresa. Fui muito bem recebido pela recepção que me ofereceu uma chavena de café [confesso que bebi por educação, pois era tão fraco, como um chá, o que não estava habituado] e orientou que aguardasse o horário estabelecido na comunicação. No horário em ponto a secretária pediu que a seguisse. O reitor foi me cumprimentar na entrada de sua sala, questionando o que estava achando da universidade e, rapidamente comecei a falar da excelência que era o conteúdo, os professores, os laboratórios, os técnicos e os colegas pesquisadores do mestrado.

Sentei-me na cadeira indicada na sala de estar, no canto daquele escritório com armários em todas as paredes, alguns com vidro em suas portas, expondo os livros de maior raridade e outras partes abertas. Tinha livros de filosofia, sociologia, antropologia, psicologia e muitos, bastante livros de engenharia. O reitor elegantemente trajava um terno italiano azul com camisa branca e, naquele horário do dia pediu desculpas por estar sem sua gravata. Começou em seguida falando que talvez no Brasil, propina possua outro significado, mas, em Portugal, tratava-se da taxa administrativa que era paga anualmente pelos estudantes do strito sensu. Naturalmente concordei com ele quanto ao significado do termo. "Realmente, no Brasil o significado é outro".
Os aspectos que envolvem o significado do termo propina no Brasil e em Portugal, estão associados a diferentes condições sócio-históricas e culturais, no âmbito da legislação e na percepção pública. Historicamente a propina no Brasil está vinculada à raízes profundas, com episódios marcantes da sociedade nacional, com expressões políticas na governança pública e privada, enquanto em Portugal, existe um histórico presente, mas com menor tolerância social. No Brasil a cultura da impunidade e tolerância social é estrutural, diferente de Portugal, onde a valorização da ética e da transparência é cultivada e respeitada. Tudo isso impacta diretamente no arcabouço legal que no Brasil é robusto, mas desafiante em sua eficácia operacional, já em Portugal, a legislação é similar, porém, a aplicação é mais rigorosa. A percepção pública brasileira possui alta tolerância com a corrupção e os portugueses possuem menor tolerância com práticas antiéticas e corruptas, seja no poder público, seja na iniciativa privada.
Como estava com bolsa de estudos financiada pelo CNPQ brasileiro, nem passou pela minha cabeça que eu precisasse completar algum dinheiro e também, como se tratava do primeiro intercâmbio na modalidade da bolsa, qualquer coisa seria novidade no processo. Pedi desculpas ao reitor pela ignorância e questionei quais as formas de pagar a propina de 500 Euros, que em 1998 era um valor interessante, sem ser em espécie. O reitor me entregou um cartão com o nome do dirigente e a instituição governamental, falando em seguida que seria procurado para fazer um trabalho que pagaria o valor devido. Nos cumprimentamos brevemente, agradeci pela ajuda e compreensão e fui embora.
Meu trabalho foi pesquisar e escrever um livro comparando a realidade brasileira e portuguesa de desenvolvimento da sociedade da informação, com foco na gestão pública. O resultado foi ampliado na pesquisa que fiz posteriormente no doutorado sobre Cidade digital, em 2000. A forma escolhida para o pagamento da propina possibilitou elaborar o projeto acadêmico para o doutorado e posteriormente, publicar em livro que se tornou fonte no estudo sobre a origem da sociedade da infomação no Brasil. A propina mesmo tendo um significado pejorativo para os brasileiros, em Portugal representou para mim, a aprendizagem ética que cultivo em minha vida pessoal e profissional.
Referência:
GUERREIRO, Evandro Prestes. Cidade Digital - infoinclusão social e tecnologia em rede. São Paulo: Senac, 2006.







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