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ATO I — QUANDO O TRABALHO DEIXA DE CABER NA MATÉRIA

16 de set.
4 min de leitura

Há uma pergunta que me acompanha quando penso na economia contemporânea: o que exatamente é um trabalho produtivo?


A pergunta não é nova.


No século XVIII, Adam Smith já procurava compreender a relação entre trabalho, produção e riqueza. Em A Riqueza das Nações, ao discutir a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo, Smith estava preocupado com a maneira pela qual determinadas atividades contribuíam para a produção e para a acumulação de capital.


O mundo que ele observava era essencialmente material. Havia terra, ferramentas, máquinas, matérias-primas, trabalhadores e produtos. Era possível acompanhar o processo produtivo com os olhos. O trabalhador transformava algodão em tecido, madeira em móveis, ferro em ferramentas. A riqueza tinha uma materialidade evidente.


Mas o que acontece quando o principal objeto sobre o qual o trabalho é aplicado deixa de ser necessariamente uma coisa?


Essa é uma das perguntas que a tecnoeconomia coloca diante de nós.


O que produz valor quando o produto não pode ser tocado?


Hoje, uma pessoa pode trabalhar durante meses em algo que não ocupa praticamente nenhum espaço físico.

Pode escrever um software.

Desenvolver um algoritmo.

Criar uma metodologia.

Construir uma base de dados.

Desenvolver uma marca.

Produzir propriedade intelectual.

Criar uma comunidade digital.

Organizar conhecimento.

Criar uma plataforma.


O resultado desse trabalho pode ser economicamente valioso mesmo quando não conseguimos apontar para um objeto físico e dizer: “aqui está o produto”. Isso não significa que a economia tenha deixado de ser material.


Um software depende de computadores.

A inteligência artificial depende de chips, servidores e energia.

A nuvem depende de data centers.

O comércio eletrônico depende de infraestrutura logística.

O digital não aboliu a matéria.

Ele acrescentou uma nova camada à produção.

Uma camada feita de informação, conhecimento, código e capacidade de organização.


O capital intelectual como máquina invisível


É aqui que começo a pensar no capital intelectual como uma espécie de máquina invisível.


Uma máquina industrial aumenta a capacidade de produzir. O conhecimento também pode aumentar a capacidade produtiva.


Um processo melhor pode reduzir custos.

Um algoritmo pode automatizar operações.

Uma metodologia pode ser replicada.

Uma marca pode ampliar a capacidade de comercialização.

Uma base de dados pode melhorar decisões.

Uma experiência acumulada pode permitir que uma equipe faça em uma hora aquilo que outra levaria um dia para realizar.


O conhecimento, portanto, não é apenas algo que sabemos. Em determinadas circunstâncias, ele é infraestrutura produtiva.

E essa mudança é enorme. Porque nossa percepção de patrimônio ainda é muito influenciada por aquilo que conseguimos ver.


Um prédio é visível.

Uma máquina é visível.

Um estoque é visível.

Mas uma reputação não é.

Uma comunidade não é.

Uma cultura organizacional não é.

Um algoritmo não é.


A capacidade intelectual de uma equipe não é.


A pergunta de Adam Smith no século XXI


Talvez seja injusto exigir que Adam Smith responda a uma economia que ele não poderia imaginar. Mas podemos fazer uma pergunta smithiana para o nosso próprio tempo: o que significa trabalho produtivo quando o trabalho produz conhecimento capaz de ser replicado em escala?


Um programador que desenvolve um software durante seis meses pode produzir algo que será utilizado por milhões de pessoas.

Um pesquisador pode produzir conhecimento que será utilizado por uma indústria inteira.

Um empreendedor pode criar um modelo de negócio que seja reproduzido em diferentes mercados.

Um professor pode produzir uma metodologia de aprendizagem que alcance milhares de estudantes.


Onde está o “produto”?


Essa pergunta revela uma transformação importante. O produto pode estar na própria capacidade de reproduzir conhecimento.


Da fábrica à tecnoeconomia


A economia industrial dependia fortemente da capacidade de organizar matéria. A economia contemporânea depende cada vez mais da capacidade de organizar informação.


Não é uma substituição absoluta. É uma sobreposição.


Continuamos precisando fabricar. Continuamos precisando transportar. Continuamos precisando construir.


Mas acrescentamos uma camada na qual o principal recurso produtivo pode ser conhecimento. É nesse ponto que a discussão econômica encontra uma discussão social.


Se o conhecimento se transforma em capital, quem consegue participar da economia do conhecimento?

Quem possui acesso?

Quem possui formação?

Quem consegue interpretar informação?

Quem consegue transformar informação em conhecimento?

Quem consegue transformar conhecimento em oportunidade?


Essa pergunta nos aproxima do que denominei como Ecossofia Digital e Infoinclusão Social. A questão deixa de ser apenas tecnológica. Passa a ser uma questão sobre a maneira como habitamos o ecossistema informacional.


O primeiro deslocamento


Talvez estejamos vivendo uma mudança silenciosa. Durante séculos, aprendemos a reconhecer uma empresa pela sua estrutura. Pelo prédio. Pela fábrica. Pela loja. Pelo estoque. Pelas máquinas.


Agora precisamos aprender a reconhecer valor também onde não existe uma estrutura física equivalente. A empresa pode estar em um código. Em uma marca. Em uma rede. Em uma comunidade. Em uma base de conhecimento. Em uma capacidade intelectual. Isso muda a própria imagem mental do empreendedor. E é justamente aqui que começa o segundo ato desta reflexão.


Se o principal ativo da empresa pode ser invisível, por que ainda sentimos tanta necessidade de construir paredes para provar que ela existe?

 
 
 

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