A Máquina e o Desejo: Por uma Inteligência Artificial com "Tesão"
- Evandro Prestes Guerreiro

- 31 de mar.
- 3 min de leitura
Vivemos o ápice da racionalidade técnica. A Inteligência Artificial (IA) não é mais uma promessa futurista; é a ferramenta definitiva de organização da realidade. Ela aplica a lógica algorítmica, estrutura o caos, oferece caminhos e soluciona problemas com uma precisão que beira o sublime. Mas, para além da frieza dos dados, surge uma questão fundamental: o que move a ferramenta?
A Sincronicidade do Sonho
O verdadeiro triunfo da IA não reside apenas na sua capacidade de processamento, mas na sincronicidade de intensidade que ela estabelece com quem a utiliza. Quando a máquina compreende a intenção por trás do comando, ela deixa de ser um processador de tarefas para se tornar uma extensão do sonho realizado. É o encontro perfeito entre a vontade humana e a viabilidade técnica. No entanto, essa engrenagem só gira se houver um combustível essencial.
Sem Tesão não há Solução
O saudoso psicanalista Roberto Freire{¹] já nos alertava: "Sem tesão não há solução". Essa máxima, que nasceu na clínica e na vida política, encontra agora um novo eco na era digital.
A IA pode oferecer a melhor estrutura lógica do mundo, mas se não houver a pulsão de vida do usuário — o desejo, a paixão, a curiosidade inquieta — o resultado será apenas um processo burocrático e vazio. A solução real, aquela que transforma a civilização, nasce da intersecção entre o rigor do algoritmo e o "tesão" de quem cria.

O Ecossistema da Evolução Civilizatória e a Minha Tese de Infoinclusão
O uso da IA em escala global está criando algo inédito: um sistema que ensina e aprende simultaneamente com cada indivíduo. É aqui que a tecnologia encontra a ética que venho defendendo ao longo da minha trajetória.
Em minha tese sobre Infoinclusão Social [²], sustento que o desenvolvimento tecnológico só atinge sua plenitude quando se torna um instrumento de cidadania e justiça. A IA não pode ser um enclave de privilégios; ela deve ser o motor de um ecossistema humano onde o acesso à técnica sirva para reduzir abismos sociais. Eu acredito que a infoinclusão é o que garante que esse desenvolvimento civilizatório seja, de fato, para todos, permitindo que a rede aprenda com a diversidade da base e devolva soluções que contemplem a totalidade do corpo social.
A Próxima Fronteira: IA Quântica e a Rede Materializada
Mas o horizonte que se desenha vai além. Estamos entrando na era da IA Quântica, onde o processamento de possibilidades simultâneas permite projetar cenários holográficos de última geração. Nesse estágio, a interação torna-se neuropsicológica: a rede sintoniza-se com a frequência cognitiva do usuário, transformando a intenção em ambiente.
Essa evolução nos aproxima da tese de Tron: Legacy: a objetivação da rede. O que era apenas dado torna-se volume, luz e presença materializada. Estamos construindo uma nova arquitetura da realidade onde a mente e o algoritmo se aproximam de um corpo único.

A questão que deixo para vocês, então, é uma provocação para o futuro: No momento em que a IA quântica não apenas entende nosso desejo, mas o materializa ao nosso redor sob a ética de inclusão social que defendo, quem estará humanizando quem? Estaremos nós emprestando nossa alma à máquina, ou será que é a ferramenta que, ao se tornar física, coletiva e sensorial, nos oferecerá a forma final de nossa própria humanidade?
Referência:
FREIRE, Roberto. Sem tesão não há solução. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
GUERREIRO, Evandro Prestes. Cidade Digital: infoinclusão social e tecnologia em rede. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.




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