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​A Qualidade da Educação sob a lente da Senóide: Uma reflexão interna

Após duas décadas percorrendo o Brasil e analisando entranhas acadêmicas, a pergunta que me persegue não é "quanto as instituições tiraram?", mas "o que esses dados realmente dizem sobre o pensar?".

A Senóide e o Simulacro da Evolução


Quando concebi a Senóide de Aprendizagem [¹], meu objetivo era traduzir o movimento real do conhecimento: um ciclo de oscilações, onde o aluno precisa mergulhar na instabilidade do "não saber" para emergir na síntese crítica. No entanto, o que vejo em muitas visitas de avaliação é um esforço institucional para "achatar" essa curva.


O sistema de indicadores do MEC, embora tenha se sofisticado com a Teoria de Resposta ao Item (TRI), corre o risco de premiar o adestramento. O IDD [²], que deveria ser o pilar mestre da qualidade ao cruzar a entrada (Enem) com a saída (Enade), muitas vezes acaba medindo apenas a capacidade da IES - Instituição de Ensiono Superior de treinar o aluno para decifrar distratores e enunciados.


O Diagnóstico Amargo: O Caso da Medicina


Um exemplo contundente dessa disfunção é o desempenho preocupante que temos observado nos cursos de Medicina. Como avaliador pelo MEC/ INEP a mais de vinte anos, vi o surgimento de inúmeras faculdades e cursos pelo país. O paradoxo é cruel: o estudante de Medicina entra no ápice da senóide (vencendo um Enem altamente concorrido), mas muitos chegam ao final do ciclo falhando em demonstrar o raciocínio clínico-crítico básico.


Quando futuros médicos patinam em itens que exigem mais do que a repetição de protocolos, o sistema de qualidade acende um alerta vermelho. A qualidade formal — aquela dos documentos, dos laboratórios brilhantes e dos indicadores de fachada — não está se traduzindo em densidade intelectual. Estamos gerando certificados, mas estamos gerando competência para lidar com o imprevisível?


Questionando a Régua: Da Técnica ao Raciocínio


A estrutura do exame (texto, descritores e alternativas) é tecnicamente impecável no papel. Mas, como avaliador e pesquisador, questiono: será que esses indicadores, inclusive modelos como a minha Senóide de Aprendizagem, não estão sendo usados apenas para preencher planilhas de conformidade?


Os Textos-base: Muitas vezes servem apenas como pretexto, não como contexto real.


Os Descritores: Estão engessando a prática pedagógica em vez de libertar o pensamento.


As Alternativas: Frequentemente premiam a eliminação lógica, e não a construção do saber.


O mais preocupante neste contexto é ver toda a cadeia de serviços universitários públicos e privados no Brasil, seguindo a mesma hipótese. O que me faz lembrar da teoria ou estratégia que permitiu a Jerusalém resistir inicialmente ao apocalipse no filme "Guerra Mundial Z" (2013), conhecida como a "Teoria do Décimo Homem" (ou Tenth Man Rule), combinada com uma resposta proativa baseada em inteligência. A doutrina determina que, se nove pessoas concordarem com uma mesma conclusão, a décima pessoa tem a obrigação de discordar e assumir que os outros nove estão errados, analisando o cenário mais improvável.


A avaliação da qualidade no Brasil precisa superar a barreira da burocracia estatística. Desde 2005, vi muitas instituições "aprenderem a ser avaliadas" sem, contudo, ensinarem seus alunos a pensar. Se a senóide é o movimento natural do aprendizado, precisamos de uma avaliação que respeite as suas fases de crise e descoberta, e não apenas uma régua fria que ignore que, por trás de uma nota 5, pode haver um deserto de raciocínio crítico. A qualidade real não é um destino estático; é a coragem de manter a curva do aprendizado em constante movimento.



Referência

[¹] GUERREIRO, Evandro Prestes. Educação digital e a senoide holística de aprendizagem. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/68559

[¹] GUERREIRO, Evandro Prestes.PASSA - Plataforma de Avaliação Sistêmica da Senoide de Aprendizagem. https://someservico.wixsite.com/passa 

 
 
 

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